O escritório de Eduardo era imponente, revestido de madeira escura e com janelas enormes voltadas para o jardim. Sofia continuava profundamente adormecida em seus braços. Sobre a mesa, havia apenas uma foto: Eduardo e Rafael, mais jovens, usando capacetes de obra, cobertos de poeira e abraçados diante do primeiro prédio que construíram juntos. Rafael usava a mesma medalha no peito.
Luzia viu a foto e levou as mãos ao rosto, chorando ainda mais.
— Ele nunca me disse que o amigo dele era o senhor… que era alguém rico — murmurou.
— Nós não éramos amigos — corrigiu Eduardo, com a voz carregada de emoção. — Éramos irmãos. Crescemos juntos numa comunidade da zona leste quando não tínhamos nada. Ele me ajudou a construir tudo isso. Morreu há dois anos num acidente na estrada… logo depois de me ligar dizendo que a vida dele ia mudar. Nunca consegui retornar aquela ligação.
Bianca, que havia entrado atrás deles, cruzou os braços.
— Que história bonita para novela das nove. E você espera que a gente acredite que, por acaso, ela veio trabalhar justamente na sua casa? É uma golpista!
Luzia se endireitou. A humilhação deu lugar a uma dignidade firme.
— Eu conheci o Rafael numa obra em Guarulhos. Eu vendia marmita para os operários. Ele sempre comprava, às vezes ficava devendo, mas pagava no dia seguinte com um pão doce. A gente se apaixonou. Quando soube que eu estava grávida, chorou de alegria. Disse que, se fosse menina, ia se chamar Sofia.
— E por que você não procurou a família dele? — insistiu Bianca. — Por que aparecer só agora?
— Porque no dia do acidente o celular dele sumiu — respondeu Luzia. — Fui ao hospital, mas como não éramos casados, não me deixaram vê-lo. Fiquei sozinha, grávida. Vim parar aqui porque uma agência de limpeza me mandou. Eu não fazia ideia de quem era o dono da casa.
Eduardo abriu uma gaveta e tirou um envelope.
— No dia em que morreu, Rafael me deixou um áudio. Disse: “Irmão, você precisa conhecer duas pessoas. Vou ser pai.” Mas nunca chegou àquele jantar.
Bianca empalideceu.
— Eduardo… meu amor… — disse ela, tentando mudar o tom. — Bebês se acalmam com qualquer pessoa. Essa medalha pode ser falsa. Você não pode arriscar tudo por causa da história de uma desconhecida. Vai acreditar nela? Nem sequer trouxe o exame de DNA que Rafael exigiu antes de morrer!
O silêncio ficou pesado.
Luzia levantou-se imediatamente.
— Como você sabe desse exame de DNA?
Bianca congelou.
Eduardo virou-se lentamente, agora com uma expressão fria.
— Como você sabe disso, Bianca?
Ela tentou se explicar, gaguejando.
— Eu… eu só imaginei…
Luzia não deixou terminar. Tirou de dentro da bolsa um documento.
— Rafael pediu esse exame não porque desconfiava de mim, mas para proteger nossa filha.
Eduardo abriu o papel. Resultado: 99,9% de paternidade.
Ele caminhou até Bianca.
— Você teve acesso ao computador dele, não teve? Você viu as mensagens…
Bianca começou a chorar.
— Eu fiz isso por você! — gritou. — Apaguei tudo! Não ia deixar essa mulher entrar na nossa vida e tirar o que é meu!
Eduardo respirou fundo, devastado.
— Você apagou a última coisa que meu irmão tentou me dizer.
— Eu queria proteger nosso casamento!
— Não existe mais casamento — disse Eduardo. — Saia da minha casa.
Bianca saiu humilhada.
Dona Helena também foi demitida naquele mesmo dia.
Naquela noite, Luzia não voltou para casa de ônibus. Foi levada pelo motorista de Eduardo.
Ela não virou esposa do milionário. Continuou sendo uma mulher trabalhadora. Mas agora tinha dignidade. Eduardo a contratou na empresa, com salário justo e creche para Sofia.
Luzia aceitou com uma condição:
— Eu quero conquistar tudo com meu esforço.
Eduardo sorriu.
— Exatamente como o Rafael faria.
Com o tempo, Sofia cresceu correndo pelos jardins. Chamava Eduardo de “tio Edu”.
E a casa, antes fria, finalmente se encheu de algo que dinheiro nenhum pode comprar: uma família de verdade.
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