E eu acreditei.
Acreditei no meu próprio sangue.
O retorno em segredo
Meu contrato terminou antes do previsto. Eu queria ver a surpresa e a felicidade nos olhos da minha esposa, então não avisei ninguém que estava voltando. Levei perfumes caros, algumas joias e brinquedos que comprei com tanto esforço para minha mulher e meu filho.
Assim que saí do aeroporto, peguei um carro direto para Campinas, no interior de São Paulo, onde, segundo Roberto, a nossa nova casa já estava pronta. Quando cheguei ao endereço que ele tinha me mandado, sorri na hora.
Na minha frente se erguia uma casa enorme de três andares, elegante, com uma garagem imensa e duas caminhonetes novas paradas na frente.
“Finalmente consegui”, pensei. “Finalmente cumpri a minha promessa.”
Lá de dentro vinham música alta, gargalhadas e o som de brindes. Parecia que Roberto e a esposa dele, Patrícia, estavam dando uma grande festa. Para surpreender Camila, decidi entrar pelos fundos, passando por um pequeno portão ao lado da cozinha.
Mas o que vi naquela parte escura do quintal fez meu coração parar.
A rainha no meio do lixo
As malas escaparam das minhas mãos.
BUM!
Ao lado dos latões de lixo, sentada no cimento frio e molhado, estava a minha esposa.
Camila.
Ela estava tão magra que parecia feita só de osso e pele. O cabelo estava embaraçado, sem brilho, como se fazia meses que não via um shampoo decente. Vestia um robe velho, desbotado e rasgado, impregnado de cheiro de fumaça e chuva. Apertava contra o peito o nosso filho, Davi, que usava uma camiseta suja e chorava de fome.
Camila segurava um prato de plástico encardido. Chorando, separava com a mão alguns ossos de carne e restos de arroz empapado que claramente tinha tirado do que os empregados acabavam de jogar fora depois da festa de Roberto.
Eram sobras. Restos.
Comida que os outros desprezaram.
— Come, meu amor… me perdoa, foi só isso que a mamãe conseguiu. Vamos limpar direitinho pra não te fazer mal — sussurrou entre soluços, tentando alimentar o nosso filho.
Senti como se uma granada tivesse explodido dentro do meu peito.
Minhas pernas falharam.
Caí de joelhos na lama.
— C-Camila…? — consegui dizer, com a voz quebrada, afogada em choro.

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